"Diz a lenda que trocou suas certezas por alguns sonhos mágicos..."

Quando éramos bem pequenininhos nós enxergávamos tudo no tamanho inversamente proporcional ao nosso. Era tudo grande demais. Era tudo longe demais. Era tudo mágico demais. E nós éramos tão pequenininhos... Onde foi que a gente estacionou a nossa magia? Onde foi que a gente se estendeu e se deixou secar por tanto tempo? O sol já passou, a magia não mais pinga, em que varal ficou aquele aval que dizia que a nossa única regra era ser feliz? Eu me lembro bem, a vida, propriamente dita, era só nossa exceção. Sim, nós tínhamos problemas e não eram só aqueles relacionados à nossa boneca ou a nossa pipa que rasgou. Não, não era. Eu e muitos de vocês crescemos tomando partido da briga dos outros, crescemos com no meio de gritos e discussões, pais se separando, família aos cacos, mas mesmo assim, eu me lembro, nós nunca perdemos a esperança e era tão fácil acreditar que tudo ia dar certo no final. Você lembra? Éramos bem pequenininhos e a padaria parecia tão distante e as pessoas tão iluminadas. Quem eram teus heróis e heroínas

Eu também me lembro da liberdade que nós tínhamos, pois mesmo que sentíssemos medo e vergonha, tínhamos um estilo próprio. Só é mexer naquele arquivo morto, naquelas fotografias que revelavam só essência. Nossas roupas chegavam no pescoço, nosso cabelo era em homenagem ao nosso animal de estimação e nossos sorrisos denunciavam aquelas lindas cáries. E agora? Só nos sobrou a vergonha e um álbum no facebook preenchido pelo nosso vazio traduzido em fotografias que evidenciam só a nossa face em várias cópias com roupas distintas, às vezes nem isso...  Afinal o que é ser adulto? O que significa ter responsabilidades? A gente cresce e o ser só faz sentido junto ao verbo ter.


Eu me lembro tão bem da primeira vez que uma risada me machucou, eu tinha 12 anos e estava na escola, dois homens foram fazer uma palestra sobre algo que não lembro mais e um deles me perguntou o que eu queria ser quando crescer, eu falei que iria fazer medicina. Ele riu e com uma voz de deboche disse que eu ia ter que estudar muito... Quantas vezes a gente já não fez isso agora que somos adultos? Quantas vezes não falamos "fulaninha tirou essa nota? Não acredito" ou pior, "ele não merecia vencer esse concurso". Nós nos colocamos em uma posição tão superior que achamos que podemos ditar o certo e o errado. Crescer é isso? Isso me torna melhor do que uma criança?
 
Nós éramos espontâneos. Mataram a nossa espontaneidade. Nós éramos livres. Criaram e criamos jaulas invisíveis. Nós éramos gentis. Hoje olhamos para um morador de rua e falamos que ele tem os braços e as pernas e que pode muito bem arrumar um trabalho. Não somos mais capazes de entender que o coração dele pode está aos cacos. Não. Vivemos para ter a maior nota, o melhor elogio, o melhor emprego, queremos a láurea e até argumentamos para sermos vencedores do prêmio que evidencia a pessoa que mais tem problemas. Até nisso queremos ser "os melhores". Mais uma vez eu pergunto, onde foi parar aquele brilho no olhar? 

E eu fico aqui me perguntando: como queremos ser lembrados quando morrermos? porque sim, vamos morrer um dia. O que deixaremos de realmente útil no mundo? Qual o legado que deixaremos para os nossos filhos ou amigos? Quais motivos realmente te dariam orgulho ao saber que as pessoas que você ama fecham os olhos e lembram de você? Falando por mim, posso dizer que não quero que sintam orgulho das minhas notas ou títulos, juro que não faço questão disso; não quero que sintam orgulho pelas madrugadas que eu passei estudando, que negócio mais sem vida e sem brilho. Eu quero é que lembrem do meu sorriso, dos meus dentes escancarados, da minha espontaneidade, na minha fé nas pessoas e no valor imenso que eu dou ao amar e ao amor. Isso sim é um bom legado a se deixar. Por esses motivos eu acredito que vale a pena viver...

Finalizo esse texto com aquela pergunta clichê que faz todo sentido:
"a criança que você foi teria orgulho do adulto que você se tornou?" 


Ilustração Mônica Crema
O que você é enfim?
Onde você tem paixão?
Segue por ai
Eu não sou ninguém demais
E você também não é
É só rodopiar
Em busca do que é belo e vulgar
Tempo de Pipa - Cícero



Existo ou desisto?

(Sempre)
Eu erro
Eu tenho pressa
Tenho defeitos
Ajo de mau jeito
Eu sou humana  -

(Eventualmente)
Eu tenho crises de choro
Eu grito
Eu xingo
Eu quebro
Não sou de ferro -

(Acontece...)
Eu reclamo
Eu humilho
Eu cobro presença à tua ausência
Eu me vingo e me ajoelho implorando teu abrigo
Sou assim contraditória  -

(Às vezes)
Eu sinto inveja
Eu não entendo
Eu não escuto
A tua existência não percebo
Sou intolerante
Desculpa te desapontar
Pelo menos pude rimar  –

Não acho feio ou doentio os meus labirintos; patológico é andar sempre em círculos a procura do próprio rabo por não conhecer suas bordas e limites. Às vezes o nosso maior erro é negar a imagem feia que reflete e vomita o espelho. Buscamos a perfeição, mas somos incapazes de respeitar os nossos próprios “não”  –
Sou o avesso
Moro na contracapa
Escuto o meu lado b
Existo num sopro
Vou e voo com os pés no chão
Eu sou só um grão

(Eu me nego a negar quem sou)


"Me olha da onde estiver que eu vou te mostrar que eu to pronta..."

Geralmente a saudade não me invade tanto ao ponto de eu notar que o senhor não está mais aqui, a saudade é leve, como se fosse de uma viagem ou uma saída rápida. Eu não sei porque, mas já conversei com pessoas que também perderam familiares (tão) próximos e todas concordaram comigo ao dizer que parece que tais pessoas não morreram, eu não sei bem explicar, é como que se "a ficha caísse" seria insuportável a dor. Isso também não tem nada a ver com vida após a morte ou céu e inferno, na verdade eu não quero criar expectativas com o que existirá após a minha morte, tento deixar a vida me surpreender por agora (fecha parênteses). No meu dia a dia eu ajo como se o senhor não tivesse morrido ou até mesmo como se nunca tivesse existido (desculpa), quando digo "nunca existido" não falo sobre não sentir a sua falta ou não lembrar de você, eu só não sei explicar, pode ser até mecanismo de defesa mesmo, enfim. Estou sentindo a sua falta e não é (só) porque o seu aniversário é daqui a pouco. Sinto sua falta porque seu silêncio está tão presente, e ele grita; sinto sua falta porque onde era festa, agora é fuga. Eu só sinto sua falta. Queria deixar escrito aqui porque o tempo pode passar e tenho tanto medo das memórias sobre você saírem de mim, irem embora... Sei que nunca fui de fazer declarações de amor para o senhor, mas eu demostrava isso e isso acalma meu coração, eu dançava com você (quando bêbado, pois sóbrio tu eras bem chatinho rsrs), eu cantava com você, eu quebrava o gelo do whisky para você, eu te amava. Eu te amo. Não consigo escrever nenhum texto sobre você sem chorar, talvez porque quando a ficha cai eu sou atacada por tantas memórias, e a saudade está (verdadeiramente) ali, que até as coisas que antes eram ruins, hoje nem são, eu queria as coisas ruins. Como amo as coisas ruins. Eu te amo. Estou sentindo a sua falta porque só você brigava comigo por ser tão escandalosa vendo um jogo. Estou sentindo a sua falta porque não existe mais televisão na garagem e família reunida. Estou sentindo a sua falta porque o último bolão da copa que tinha seu nome foi em 2010. Estou sentindo a sua falta porque o senhor cuidou de mim. Estou sentindo a sua falta porque hoje quando amanheço o dia estudando ou vendo filme ninguém vem arrastando a sandália e dizendo "Amanda rapaz, essa hora? olha a energia". Estou sentindo a sua falta porque ninguém me diz que estou de-fi-nhan-do e que preciso comer. Estou sentindo a sua falta nos detalhes, porque o amor está nos detalhes e hoje, por saber bem o que é isso, sou muito ligada aos pequenos detalhes e presentes que a vida me dá. Eu queria pegar mais uma vez na sua mão quentinha, queria dá mais um beijo na sua careca, queria mais um dia te ver fazendo a barba, queria te pedir mais uma vez para comprar uma coca-cola para o almoço. Queria tanto, mais tanto, acordar com Amado Batista tocando, o senhor na cadeira de balando com o seu boné, meus tios chegando, vocês brigando... Como eu queria, mas não queria mais uma vez, pois não iria saber me acostumar a abrir mão disso tudo de novo. Eu queria todo dia. Porque quando eu quero eu quero muito. E eu já não consigo lembrar do nome ou letra daquelas duas músicas que o senhor cantava...
Sinto a sua falta.



   

Estou em milhares de cacos

Adriana Calcanhotto está cantando no meu ouvido aqui agora. Ela diz que quer que eu volte, que eu vá para algum lugar e quer que eu olhe para ela. Não quero voltar Adriana, repito várias vezes tentando acreditar nas minhas palavras que se solidificam em forma de pensamento. Adriana começa a cantar outra súplica aqui, acho que ela precisa de um abraço, fala de umas cartas que precisam ser devolvidas, "isso é o de menos" penso eu ao ouvi-la. Meio pensativa me pergunto por que que as dores fazem tanto sentido quando traduzidas em canções, textos, em lágrimas? E por que ela é tão convidativa? É como tomar banho em dia frio, você coloca o pé e as circunstâncias te fazem entrar de corpo e alma. Que coisa complicada! Saímos com mais frio ainda e passamos meia hora enrolada em posição fetal esperando e pedindo descontroladamente para o maldito frio ir embora. Vá embora "que o que você demora é o que o tempo leva". Não sei bem ao certo para qual lugar.

Entendo bem essa dor e drama que Calcanhotto vomita, aliás, entendo a minha própria dor. Talvez nem se trate de dor, mas da visualização por outro ângulo da cicatriz deixada, fincada; aquela cicatriz que em dias frios doi, gela, aquela que mesmo tendo sua presença notada psicologicamente é mais concreta do que toda a subjetividade do poeta. Mesmo prestando atenção em todos os meus detalhes e em todas as minhas cores, mesmo divertindo gente e chorando frente as suas palavras, mesmo não negando ao mundo os meus sentimentos e becos sem saídas eu ainda não sei o motivo desta minha perda momentânea da razão ao escutar sobre as contradições e visões enquadradas da cantora em questão. Talvez tenha rolado uma identificação. Talvez. 

Eu aqui expondo tantos questionamento e pensando em tantos argumentos me viro para Adriana e ela está submersa no mundinho egoísta da sua dor, só faz perguntar pelo seu amor. "Meu amor cadê você? eu acordei não tem ninguém ao lado". Acho que o amor da Adriana já tem outro amor, acho que ele está habitando outra cama, outra alma . É sempre assim. E se é para falar de amor eu bem sei, nossa como eu amei, me lembro bem de como me sentia especial em poder sentir algo tão grande e tão frágil ao mesmo tempo, lembro do orgulho que tinha em ser a namorada dele. Sabe quando você consegue pegar a palheta do seu cantor favorito do mundo e sente o maior orgulho de si? ou então aquele orgulho de ter seu livro autografado pelo autor que te arrancou lágrimas e sorrisos com as suas palavras? Pronto, eu amei e tinha esse sentimento de que eu iria transbordar a qualquer momento de tanto orgulho... 

O tempo e o orgulho passaram e eu percebi que a palheta era de plástico e que o autógrafo resultava do movimento de uma caneta no papel, movimento este reproduzido em tantos outros papeis só tendo a preocupação em modificar o nome para quem a dedicatória foi direcionada. É neste momento, nesta breve pausa entre o real e o imaginário, que a gente se pergunta se amou a pessoa ou o valor -indevido- que direcionamos a elas. Palheta se perde, livro de molha e as palavras se desfazem.

"Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?"

É Adriana, sei bem como é estar em milhares de cacos, já estive. Hoje sou remendos. E como um todo remendado não sei onde acaba os limites das minhas fronteiras. Não sei até que ponto suas músicas falam de mim e muito menos onde meu texto se encaixa nisso tudo. Você se pergunta pra quem canta, eu para quem escrevo.


 
Fanpage Mônica Crema







Palavras são erros e os erros são MEUS

Faz um tempo que venho escrevendo de caneta no meu caderno. Na minha vida também. É porque hoje me parece que o que me faltava era aceitar a certeza da incerteza ou ao contrário! Com isso, eu buscava a solidez de uma forma que as situações líquidas não saciavam a minha sede e eu sofria com os lábios secos por não saber experimentar e viver o que os líquidos escorriam sobre mim... Talvez a insatisfação direcionada por mim a estes líquidos ainda escorra pelo meu rosto, mas hoje solidifico o seu caráter metamorfósico  na minha alma. Hoje escrevo de caneta porque aceito os meus defeitos e meus erros (ou tento assim fazer), escrevo de caneta para aceitar as minhas palavras erradas e letras trocadas, assim fica mais fácil de aceitar quando passo por cima dos meus estados e evaporo, desaparecendo. Escrevo de caneta no papel para deixar registradas as minhas vontades e demandas e para entender quando os papeis referentes à minha vida são trocados tornando, assim, as letras irreconhecíveis.

Não quero o medo do lápis, não quero sua fuga e barulho, não quero apagar quem eu fui ontem ou quem, eu hoje, desejo ser amanhã. Escrevo de caneta porque meus erros e arrependimentos ficam em evidência e mesmo que eu passe corretivo por cima ainda existirá o volume em branco que se destoa do restante da folha do meu caderno, do restante da minha vida. Os lápis deixam vazios mal resolvidos, canetas deixam cicatrizes, prefiro a lembrança da minha falha ao falhar continuamente por ter apagado as minhas fraquezas, por ter apagado quem fui, por ter tentado me apagar e me reescrever sem respeitar as minhas próprias pautas.

Escrevo de caneta porque aprendi que mais importante do que não errar é acertar no respeito direcionado a mim, é aceitar a imagem que me olha no espelho. É, simplesmente, com tudo que o verbo SER carrega consigo.


Sobre a greve da Polícia Militar em Pernambuco

Postado no meu facebook dia 15.05.2014

Tenho muitos problemas com a Polícia Militar, muitas críticas e desacordos. Acho sim que ela é despreparada, principalmente ao lidar com a questão social, principalmente quando o assunto são pretos e pobres. Mas mesmo diante de tudo isso, sei da sua importância e sei que existem bons profissionais, como todo ofício sei que há muitos tipos de pessoas lá dentro. O maior problema (pra mim) é a militarização, mas não é sobre isso que eu quero falar!
Ano passado teve muitos protestos em todo o território brasileiro, todo mundo viu o modo de agir da polícia, ouvi muitos policiais falarem que os estudantes são um bando de desocupados, só se referiam a nós pelo nome de vândalos. Vi muitos dizendo que "a vontade é meter bala". O que Eduardo Campos mandou os policiais fazerem? foi muita violência, spray de pimenta e bala de borracha... Teve protesto e greve dos professores no RJ e o que houve? a mesma coisa, professores também apanham! E nos protestos em SP que estão rolando até hoje? repórteres, idosos e estudantes, todos agredidos e tratados como merda! E quando houve a greve dos motoristas de ônibus?
Enfim, o que a gente diz muito é que estamos protestando pelos policiais também, que eles fazem parte da sociedade e que quando pedimos por uma sociedade melhor, pedimos pra eles. Educação melhor para as famílias deles. Saúde melhor para eles e as famílias deles. Mobilidade melhor para eles e as famílias deles. Segurança melhor para eles e as famílias deles. Vida melhor para eles e as famílias deles (Assim bem repetitivo)! E eles continuaram e continuam agindo como se não fizessem parte do que a gente grita! E eles continuaram e continuam nos tratando como merda.

O governo que antes os afagaram é o mesmo que hoje os apedrejam.

"Ontem" nós fazíamos protestos e greves e os policiais faziam o que faziam, hoje quem esta fazendo isso são eles. Sim, eles tem todo o direito de reivindicar pelos seus direitos e não quero discutir aqui se sou contra ou a favor da greve. O que quero dizer aqui desde o começo é sobre o meu desejo de que eles entendam que o governo está contra qualquer grupo que reivindiquem qualquer coisa. Queria muito que eles entendessem e RESPEITASSEM quando nós estamos nas ruas protestando porque eles também precisam desse meio para "ter voz". Queria muito que eles fossem menos "(P)au (M)andado" é refletissem antes de apertar o spray de pimenta e antes de levantar o cassetete para um estudante, professor, motorista, cidadão, etc.

Sim policiais, a cidade está um caos, PRECISAMOS DE VOCÊS da mesma forma que VOCÊS PRECISAM DA GENTE. Então pensem antes de nos tratarem como merdas gritantes! Só isso.



Sobre o #SomosTodosMacacos

Publicado no meu facebook dia 28.04.2014

Antes de colocarmos #SomosTodosMacacos no nosso facebook deveríamos parar para pensar nas nossas atitudes diárias! No nosso último olhar de lado para uma pessoa diferente da gente na rua, na última vez que jurávamos que seríamos assaltadxs quando um ser estava andando atrás da gente... Deveríamos lembrar daqueles nossos últimos argumentos que gritaram ao mundo que bandido tem que morrer, pois só expressamos essa ideia quando o bandido é PRETO e POBRE; deveríamos lembrar do Alcides, da Cláudia, do Guilherme, do Amarildo, da infinidade de pessoas que a gente simplesmente nem ligou por ser PRETO e POBRE! Diariamente a gente joga algo na população negra, coisas que nem dá para descascar e comer... Acho super válida essa mobilização, mas que ela se ramifique aos negros que morrem todos os dias na favela, aos negros que são tratados como lixos por serem pretos e pobres, aos negros que não tem voz, aos negros que vivem nas ruas, aos negros!

Tá acontecendo uma limpeza racial nas ruas de bairros nobres e favelas por conta da copa e ninguém se doi, ninguém! Que não só nos revoltemos quando quem sofre esse racismo é um rico jogador influente, que lembremos, acima de tudo, de que antes de SERMOS TODOS MACACOS nós#SomosTodosHIPÓCRITAS! E egoístas.


Sobre um ser iluminado que anda pelos corredores da UFPE! ♡

Isso não é um poema, isso não é uma crônica, não terá rima e português de rico. Não terá ritmo, não será ouvido e muito menos sentido. Isso não é nada, isso é o nada, melhor assim, no nada cabe tudo, o nada é sincero, o nada nada esconde no seu olhar. Pois é, eu não sei nada sobre você, só sei das coisas que o seu olhar me diz. Não sei nada sobre os seus medos, não sei nada sobre os seus desejos, não sei em qual local você descansa todo esse seu brilho. Não sei nada sobre a sua infância, não sei o que você queria ser quando crescer, não sei se ao crescer você queria deixar de ser. Nada sei sobre você. Não sei sua cor favorita, não sei as dificuldades que já passou na vida, confesso que nem sei o seu nome completo. Tudo que sei sobre você é o que seu olhar tem a dizer.

Seu olhar me fez gostar de você, seu olhar me fez admirar você, seu olhar faz você. Seu olhar afirma ao mundo que você é o protagonista da sua vida, sua forma de tratar seus amigos mostra que você tem a raridade estampada na alma. Adoro sua forma plástica de embrulhar e aquecer os nossos corações, adoro a forma com que você faz do seu coração uma universidade pública que para entrar nem precisa de prova, basta querer amar também.

Você carrega no olhar a leveza e profundidade dos poemas de Drummond, Ton. Só queria te dizer que eu adoro sua melodia, eu adoro o seu TOM! 

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Texto escrito em novembro de 2013 para a comemoração do
aniversário do nosso querido representante de turma, Ailton Ramos.
Pessoa iluminada que carrega consigo todos os sonhos do mundo e transborda isso no olhar! 

Eu e Ailton no 2° período de Psi - 2011 

O abraço de aniversário 

Minha turma do curso de Psicologia! Foto do aniversário de Ton 



"Olha esse sorriso tão indeciso, tá se exibindo pra solidão..."

Hoje andando pelas vielas do facebook me encontrei com duas histórias distintas que, na verdade, pareciam ser irmãs gêmeas, as feições eram tão iguais que pensei ser o mesmo sorriso, confundi e deduzi que ali residia o mesmo brilho no olhar. Talvez resida. Talvez resista. O que hoje vos falo é sobre a nossa capacidade de naturalizar coisas tão ruins, aprendemos a não olhar o que (pode talvez) nos chocar. Hoje conheci a história do Allison que nada tinha além de um pacote de amendoins, ele, que nada tinha, ofereceu tudo que tinha a um gringo qualquer. Conheci também a história do Guilherme que só queria ter seu coração eternizado e congelado em uma foto! :)

Guilherme e seu coração. Fonte: Fanpage Razões para Acreditar
Cara, são tantas as histórias que existem por ai dormindo nas ruas frias, são tantos os sorrisos e corações congelados, não numa foto, mas num dia de inverno. E os nossos olhares? Esses estão congelados e focados nos nossos interesses pessoais! Olha essa foto do Guilherme mais uma vez e pensa em tantos Guilhermes que existem por ai, quais serão seus sonhos? O que será que ele pensa ao dormir? Será que ele já teve um amigo imaginário ou se imagina invisível nesse vasto mundo vazio? Será que ele escolhe entre comer na bob's ou na mcdonald's? Qual será que foi sua maior decepção na vida? São tantas questões... 

Eu andando depressa hoje pelo centro da cidade um homem me pediu dinheiro, eu nem o olhei nos olhos, eu nem o dei a chance de ter seu sorriso ou olhar congelados na minha mente. Acho que quando ele terminou a frase meus passos já estavam no parágrafo seguinte.

E quantas outras vezes eu não fiz isso? Quantas outras vezes não fizemos isso? Às vezes a única forma de dizermos ao outro que estamos notando a sua existência é fugindo dele e indo para o outro lado da rua com medo de sermos assaltados. A gente exclui na mesma rapidez com que piscamos os olhos e é nessa breve pausa (eterna para eles) que negamos ao outro o direito de pertencer a este mundo, não que seja um bom lugar para habitar. 

Enquanto eu estava indo fazer a minha carteira de estudante universitária tantas outras vidas se questionavam sobre o que iriam comer naquele dia, pois não são todos que como o Allison possuem amendoins. Tantas vidas vivendo nas ruas, vidas que ~todos os dias~ são recebidas com olhares de desprezo e nojo por outras vidas, vidas que crescem vendo os outros indo comprar roupas, tomar sorvete, passear no parque 13 de Maio com os filhos num dia ensolarado de domingo, vidas que aos 6 anos de idade se drogam e a única coisa que fazemos é dizer, com a nossa testa enrugada, que o mundo está perdido. Na verdade quem se perde é a gente no nosso discurso hipócrita e no nosso egoísmo em liquidação. 

A maioria dessas vidas são reconhecidas apenas quando cometem algum crime e, depois de todas as formas possíveis e imagináveis de exclusão que exercitamos contra tal ser, somos os primeiros a dizer que ele merece morrer, ser espancado, ser, não diferente de antes, tratado como um lixo qualquer, como um objeto de valor irrisório, como um nada. E mais uma vez não refletimos sobre o que a sociedade faz com seus herdeiros, mais uma vez excluímos e nos fechamos no nosso mundinho de merda. Meu Deus, eu sou uma vergonha.

Antes de achar o Guilherme um fofo pense em todos os outros Guilhermes que você chamou de trombadinha e marginal pelo simples fato dele não poder exercer seus direitos e deveres como você. Pelo simples fato da roupa dele ser suja e rasgada. Pelo """"""""""""""""""simples""""""""""""""""""" fato dele descansar sua existência em um pedaço de papelão na noite do sábado em que você ficou em casa porque estava chovendo demais... 

Desculpa Guilhermes.
"Guilherme me pediu: 
'Tio, não apaga a foto não tá?'. 
Pra finalizar Guilherme disse: 
'não sou de tirar foto não, mas hoje o dia tá lindo'."