O (a)mar.

Eu preciso ir embora. Não posso continuar.
O meu barco estava ancorado e agora as tuas palavras me obrigam a partir deste lugar tão familiar e assustador ao mesmo tempo.
Hoje eu pulei do barco e aquelas nossas canções me engoliram como ondas destemidas
Eu prometi a mim mesma que não permitiria mais me afogar nessa tempestade de conflitos que há dentro dos teus olhos profundos.
Profundos como o amar ainda presente nas minhas terras desertas; nas minhas terras interditadas.
Eu desaprendi a nadar, acredite!
E as gotas das tuas águas não se envergonham ou empalidecem ao invadir e deixar os meus olhos marejados.
Eu, que antes era o teu próprio cais, hoje sou apenas uma simples folha que nada sozinha procurando por abrigo e fugindo desse caos.
Esse mar não cabe dentro de mim e transborda destruindo toda essa cidade de papel.
Ele é tão intenso que eu já nem sei mais se uso as metáforas ou sou usada por elas ao ousar em nadar dentro dessas águas tão turvas, tão tuas.
Acredito que nesse momento as metáforas me  escrevem
e esse mar se constitui apenas como o meu eu poluído
que ainda teima em habitar um ser vivo,
Você!



As certezas e as dúvidas andam lado a lado

Sim, estamos virando robôs! Somos a própria tecnologia maquiada de seres humanos, cada vez mais nos negamos o sentir, nos negamos em negar que somos frágeis e quebráveis! Apenas nos negamos. Não aceitamos as tristezas, as dúvidas, o medo, o vazio e vamos, com o passar do tempo, nos preenchendo de uma ilusão que teima em mostrar ao exterior uma autossuficiência que, na verdade, inexiste! Resolvemos tudo engolindo um comprimido ou comprimindo um sorriso esmagado por mentiras, por automentiras! Parece que o maior pecado do mundo é mostrar que sim, necessitamos de carinho, de colo, de amor, de um ombro amigo; às vezes só o que queremos é chorar em silêncio ao lado de um alguém para escutarmos daquela boca preocupada que tudo vai ficar bem, mesmo que seja muito difícil visualizar um final feliz naquele instante. Não olhamos nos olhos alheios por termos medo de não sermos compreendidos, não conversamos mais com os desconhecidos, nós só nos fechamos na nossa carcaça de lata e trancamos todas as portas para não sermos incomodados e é nesse momento em que vamos nos perdendo de nós mesmos, mas afinal, quem somos nós? De nós somos feitos ou o laço nos embrulha?



As coisas cotidianas estão ficando tão raras que quando alguém faz algo "humano", como dar um bom dia com um sorriso, nos sentimos a pessoa mais feliz do mundo, nos sentimos a pessoa mais especial do mundo e é muito boa essa sensação, porque acredito que até as máquinas necessitam e clamam, nem que seja de uma forma defeituosa, por assistência, por reparo! Estamos virando máquinas porque a vida está solicitando muito de nós e não temos a capacidade de dizer não para ela; é mais fácil parar de sentir do que se dedicar ou frustrar um nobre pedido da vida; é mais fácil renunciarmos a nossa condição de seres que possuem limites. Almejamos o voo sem ao menos cuidar ou fazer nascer as nossas asas, a verdade é que não temos mais tempo de cultivar, queremos tudo pronto para ontem. Só queremos e nem sabemos mais o verdadeiro significado do querer.

A vida é difícil porque as pessoas são assim e isso vai permanecer mesmo que sejamos as pessoas mais resilientes do mundo; no fundo, o balanço da maré nos mantem seres sensíveis à experiência de estarmos dentro de um barco parado. É necessário também saber estacionar! 

No fim, a leveza vem quando estendemos que só temos duas mãos e dois pés. Que não adianta, assim, segurarmos mais do que aguentamos e, muito menos, corrermos tanto com esses pés que se cansam quando não são respeitados. A calma vem quando conseguimos visualizar concretamente o fato de que mesmo se tivéssemos todas as mãos do mundo, ainda assim, reclamaríamos, pois isso é algo que faz parte da nossa natureza. Nossas mãos não são capazes de nos prender e quando o fazem nos tornamos as tais máquinas anteriormente faladas. Máquinas são acionadas com os toques de outros dedos, os humanos, com os toques de uma alma. Sejamos a alma que toca e a alma tocada.

If it's a broken part, replace it
If it's a broken arm then brace it
If it's a broken heart then face it

And hold your own
Know your name
And go your own way

And everything will be fine










O feminismo que eu sigo

"Emma Watson foi recentemente nomeada Embaixadora da Boa Vontade pela Organização das Nações Unidas. Como tal, lançou a campanha #HeForShe em pró da igualdade dos direitos entre gêneros. Em seu discurso ela aponta a importância da participação dos homens na campanha anti-sexista." O vídeo do discurso feito pela atriz foi o que me fez querer escrever sobre o feminismo que eu sigo por aqui!

Tempos atrás, quando me perguntavam se eu era feminista, eu tinha muito receio em dizer que sim. Eu dizia que o feminismo era muito grande e que tinha muitas correntes, as quais eu desconhecia, e que muitas vezes brigavam entre si. Meu único receio era pelo fato de eu não seguir um feminismo cheio de referenciais teóricos concretos, bibliografias, etc etc etc; sempre tive receio com esse campo científico que me obriga a usar o nome de alguém antes de falar sobre o que acredito. Claro que o feminismo que eu sigo foi dito e vivido por muitos pesquisadores, mas eu não sou obrigada a citá-los para ter credibilidade com as palavras, não quero estar certa, mas, ao menos, viver e lutar por aquilo em que eu deposito minha confiança.

Eu percebi que era feminista quando entrei na universidade, mas eu já era. Assim como Emma Watson, aconteceram várias coisas que me permitiram ter essa certeza há alguns anos atrás! Quando eu tinha nove anos um grupo de indivíduos (outras crianças) da minha escolinha, na minha interiorização foi a escola inteira, me segurou para um menino poder me beijar, com a finalidade de me livrar de todas aquelas mãos, precisei dar um tapa na cara dele. Quando estávamos na presença da diretora, ela disse que ele poderia me bater no rosto também, pois a escola seguia a política do "olho por olho, dente por dente". Ele não aceitou. Sim, eu sei que éramos crianças, mas o fato do tapa ter sido mais preocupante do que o outro fato de todas as crianças terem me segurado para o menino poder me beijar me preocupa muito, afinal de contas, educação é algo que se aprende desde cedo!

Desde cedo, quando me mandavam engordar, eu dizia que ser magra estava bom, pois eu não queria ser chamada de gostosa na rua. Mas na pré-adolescência eu estava  indo à praia com minha mãe e minha prima e um homem me chamou de "maguinha gostosa", minha mãe ficou com muita raiva e eu com muito medo dela ir falar com ele, pois quando criança aprendi que não se deve falar com estranhos, principalmente se for um homem. Se tiver com dúvidas ou perdida procure uma mulher, de preferência com filhos ou um senhor com cara de avô. Hoje eu sei que independente do meu corpo e das minhas roupas seria e, infelizmente, sou invadida no meio da rua por olhares e palavras desconfortáveis. 

A relação entre "ser mulher" e "ser propriedade de todos" desgasta, machuca, invade.

Sim, eu sou feminista e tenho MUITO orgulho disso! Ainda me incomodo por muitas vezes ser vista como a "chata que vê machismo em tudo", mas só pela denominação de chata, queria que o machismo e suas múltiplas faces fosse algo mais óbvio no meu ciclo. Como a atriz de Harry Potter disse, o nome FEMINISMO está espantando muita gente, mas o nome pouco importa. Se trata de direitos iguais, olhares iguais, respeito igual, sabe?!

Eu não sou contra maquiagem, silicone, plásticas ou qualquer outra coisa que tenha como base argumentos pautados em uma sociedade machista, não sou! Acredito que a maquiagem é a máscara que menos esconde, afinal podemos estar com a cara lavada e preenchidas pelos argumentos mais sujos e pelos olhares mais hipócritas. Meu feminismo é aquele em que a mulher é livre para se maquiar ou não, colocar silicone ou não, fazer uma plástica ou não; e tudo isso feito tendo como base o querer e a liberdade. Luto para que essas coisas não sejam feitas por obrigação ou por sentimentos de invisibilidade diante das "demandas" do mundo. Conheço homens que se maquiam, que fazem a sobrancelha e que se depilam. Conheço mulheres que não se maquiam e que deixam seus pelos crescerem. Conheço mulheres que não saem de casa se não estiverem maquiadas e devidamente depiladas. Qual é o problema disso? NENHUM (pra mim). 

Acredito que o problema está na mulher que, quando usa maquiagem, acha que só é "mulher de verdade" aquela que se arrumar. Acredito que o problema está presente quando a mulher que não se maquia se acha superior por não precisar "se esconder" para se sentir amada. O problema é esse sentimento de superioridade, entende?! Acredite, o meu batom vermelho e minha perna depilada não me torna menos feminista.

Essa semana eu escutei um familiar meu dizer que as atrizes não são mulheres para casar, pois "se agarram com todo mundo, são todas putas". É, doeu! 



Até quando seremos culpabilizadas pelos estupros e violências que nos ocorrem? Até quando ganharemos salários menores? Até quando seremos vistas como o sexo frágil? Homens, chorem! Amem! Cuidem dos filhos! Se maquiem! Sejam livres também. Acredito que essa desigualdade ainda é forte e grande porque além de machistas, somos egoístas e não nos revoltamos até que isso nos machuque profundamento. Sinto informar, mas já nascemos atingidos e sangrando por conta dessa sociedade opressora!

Enfim, é isso. Sei que meu texto não tem grandes citações, mas estou exercendo a minha liberdade aqui.

"Nem vem tirar
Meu riso frouxo com algum conselho
Que hoje eu passei batom 
vermelho"










"Quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar..."

Ela estava andando por aquele caminho que já tem seus passos tatuados, sim, por aquele mesmo percusso já feito tantas outras vezes quando ela era mais nova e também agora, depois de carregar vários labirintos nas costas - e dentro de si. Cada passo dado fazia nascer alguma lembrança outrora perdida dentro da bagunça que era a sua vida, as memórias eram muitas e em tanta abundância que ela até se envergonhou diante dos olhares que pareciam escutar suas vozes interiores. Aqui era uma loja de material escolar, aqui uma bomboniere, a qual sua avó já saiu sem devolver o troco da mercadoria que veio a mais, aqui parecia ser tão grande quando eu era pequenininha.

A volta pra casa foi preenchida igualmente por tamanha introspecção. A verdade é que ela vinha tendo essas lembranças de quando as coisas pareciam ser mais fáceis e o biscoito do lanche da tarde mais saboroso. Lembrava claramente das tardes em que fingia dormir para que a sua avó não lhe arrancassem os dentes, lembrava do disco de vinil instrumental que era colocado toda vez em que a decoração de natal era distribuída pela sua casa; lembrava, antes de tudo, de todas as vezes que caiu devido a alguma brincadeira e era amparada por aquelas pessoas que a amavam. Como era libertador chegar da escola e ficar só de calcinha vendo sua novela preferida no quarto dos avós...

Já em casa ela sorriu tristemente entendendo o fato de que com os olhos de agora seu passado parecia um daqueles filmes de final de ano em que todos estão muito felizes diante da mesa e repartindo o peru. Em relação ao futuro, ela era muito otimista também e isso era outro fato que lhe deixava abusada, não gostava de ter o brilho no olhar só quando se tratava do passado ou do futuro, mas mesmo diante de várias tentativas de mudança, o aqui e o agora era um eterno vazio, um eterno recordar e planejar. No calendário dela não existia o hoje, só o ontem e o amanhã; isso a estava sufocando...

Todas essas lembranças geraram uma enorme sensação de perda na pequena menina, outra verdade sobre ela é que ela vinha se glorificando e colecionando tais sentimentos de pequenez diante da ausência de coisas que antes eram tão presente, ou seja, diante da fatalidade e fragilidade da vida. Lamentava a perda dos amores, dos familiares, dos momentos que passaram, dos olhares perdidos e das palavras silenciadas e se não houvesse mais nada para lamentar, ela lamentava. A frágil menina aprendeu da forma mais difícil e mais verdadeira que não perdemos o que não temos, aprendeu com as suas próprias quedas e com seus joelhos ralados que diante da vida somos apenas um rio e que as águas sempre nos visitam com a sua fluidez. É preciso praticar o deixar passar!

Achar que é dona das pessoas e ter a ilusão de que tem controle sobre tudo na vida é só mais uma forma de se automutilar neste mundo imprevisível. Os conflitos são, querendo ou não, degraus que nos permitem explorar lugares antes desconhecidos diante das nossas inúmeras profundezas. O que seria da pérola se a ostra fugisse do incômodo do grão de areia? O que seria uma borboleta se ela se recusasse de sair do casulo? Que rosto refletiria no espelho se todas as minhas cicatrizes estivessem ausentes? Será que eu seria a mesma pessoa se todas as minhas perguntas fossem recepcionadas com um sim? Sim, a menina estava mergulhada na piscina das interrogações.

Já na cama, indo dormir, ela sorriu pensando sobre a beleza infinita das reflexões clichês que preenchiam seu quarto naquele instante e naquele breve momento ela tinha intendido que mais importante do que as coisas que são ditas, é a forma e a verdade com que ecoam na nossa alma.

Naquela noite a menina foi dormir feliz e seu único plano era se deixar ser surpreendida pela vida

"Eu que já não quero mais ser um vencedor
Levo a vida devagar pra não faltar amor..."












"Ainda não fazem pessoas que enxuguem suas próprias mágoas..."

Para que servem as músicas que você escuta se não for para trazer aprendizado? Se não for para trazer ajuda? A música, para que serve se não for para traduzir o que você sente ai dentro do teu peito? E aqueles filmes, me diz, eles te vestem? Para que servem se não para te fazer ver na TV o drama da tua existência? Quando está triste e não consegue chorar você assiste “Dançando no Escuro” para transbordar? E sobre o último livro lido, me diz, ele fez algum sentido? Ele foi abrigo e te levou a mundos desconhecidos? Qual o teu título? Você conseguiria traduzir sua história em um parágrafo que constituiria a sinopse da sua existência? Sim, estou falando de você e não do livro. Se limitar é guardar segredo ou se anular? Quando você escreve é para você ou para alguém convencer? Você escreve mentiras ou se (des)constrói a cada linha? E quando você se lê você se vê ou custa a acreditar nas letras que afirmam revelar você? Mas afinal, quem é você? O que você está fazendo da sua vida? Nós tínhamos combinado que o espelho seria seu melhor amigo e você tinha me prometido que reconheceria sua imagem refletida e se relacionaria comigo através dela... Onde tua verdade se perdeu? Aliás, por que você me estacionou em uma rua sombria qualquer e continuou a seguir “destino afora” sem mim? Em que local exato do teu mapa eu passei a fazer parte do território desconhecido e inabitável por você? E eu continuo precisando saber por que foi tão difícil para você fazer morada em mim... Enquanto você já mudou a direção, eu ainda estou aqui tentando entender que local é este que existe quando você já não está mais perto. Sempre foi assim, enquanto a minha casa já estava pronta e eu a chamava de palácio, você ainda estava pesquisando o preço dos tijolos para formar a base da sua. Enquanto meu pão de queijo já estava exalando seu cheiro, você preferia ir comprar a sua massa pronta e se achava tão esperto por isso... E enquanto eu escrevo essas linhas e as minhas interrogações são para e sobre você, você já está escrevendo outra história; enquanto eu estacionei no fim, você já publicou inúmeras versões do seu “final feliz”.


E enquanto me pergunto até quando estarei presa no “enquanto” , você tenta de longe enxugar o meu pranto e me diz, atuando, que no seu passado é o meu canto. E hoje já não sei mais por que essa história continuo rimando... 

Deixa pra depois
O que já não precisa esperar
E tudo que não deu pra consertar
Por culpa do depois
Não tem jeito não
A gente sempre espera piorar
a gente sempre deixa de cuidar
do que já tem na mão
Mas é sem querer
Sem querer
       Cícero - Eu não tenho em barco


"Diz a lenda que trocou suas certezas por alguns sonhos mágicos..."

Quando éramos bem pequenininhos nós enxergávamos tudo no tamanho inversamente proporcional ao nosso. Era tudo grande demais. Era tudo longe demais. Era tudo mágico demais. E nós éramos tão pequenininhos... Onde foi que a gente estacionou a nossa magia? Onde foi que a gente se estendeu e se deixou secar por tanto tempo? O sol já passou, a magia não mais pinga, em que varal ficou aquele aval que dizia que a nossa única regra era ser feliz? Eu me lembro bem, a vida, propriamente dita, era só nossa exceção. Sim, nós tínhamos problemas e não eram só aqueles relacionados à nossa boneca ou a nossa pipa que rasgou. Não, não era. Eu e muitos de vocês crescemos tomando partido da briga dos outros, crescemos no meio de gritos e discussões, pais se separando, família aos cacos, mas mesmo assim, eu me lembro, nós nunca perdemos a esperança e era tão fácil acreditar que tudo ia dar certo no final. Você lembra? Éramos bem pequenininhos e a padaria parecia tão distante e as pessoas tão iluminadas. Quem eram teus heróis e heroínas

Eu também me lembro da liberdade que nós tínhamos, pois mesmo que sentíssemos medo e vergonha, tínhamos um estilo próprio. Só é mexer naquele arquivo morto, naquelas fotografias que revelavam só essência. Nossas roupas chegavam no pescoço, nosso cabelo era em homenagem ao nosso animal de estimação e nossos sorrisos denunciavam aquelas lindas cáries. E agora? Só nos sobrou a vergonha e um álbum no facebook preenchido pelo nosso vazio traduzido em fotografias, que evidenciam só a nossa própria face em várias cópias com roupas distintas, às vezes nem isso...  Afinal o que é ser adulto? O que significa ter responsabilidades? A gente cresce e o 'ser' só faz sentido junto ao verbo 'ter'.


Eu me lembro tão bem da primeira vez que uma risada me machucou, eu tinha 12 anos e estava na escola, dois homens foram fazer uma palestra sobre algo que não lembro e um deles me perguntou o que eu queria ser quando crescer, eu falei que iria fazer medicina. Ele riu e com uma voz de deboche disse que eu ia ter que estudar muito... Quantas vezes a gente já não fez isso agora que somos adultos? Quantas vezes não falamos "fulaninha tirou essa nota? Não acredito" ou pior, "nunca imaginei que fulaninho fosse capaz". Nós nos colocamos em uma posição tão superior e achamos que podemos ditar o certo e o errado. Crescer é isso? Isso me torna melhor do que uma criança?
 
Nós éramos espontâneos. Mataram a nossa espontaneidade. Nós éramos livres. Criaram e criamos jaulas invisíveis. Nós éramos gentis. Hoje olhamos para um morador de rua e falamos que ele tem os braços e as pernas e que pode muito bem arrumar um trabalho. Não somos mais capazes de entender que o coração dele pode está despedaçado. Não. Vivemos para ter a maior nota, o melhor elogio, o melhor emprego, queremos a láurea e até argumentamos para sermos vencedores do prêmio que evidencia a pessoa que mais tem problemas. Até nisso queremos ser "os melhores". Mais uma vez eu pergunto, onde foi parar aquele brilho no olhar? 

E eu fico aqui me perguntando: como queremos ser lembrados quando o nosso corpo já não pisar mais nessas terras? porque sim, vamos morrer um dia. O que deixaremos de realmente útil no mundo? Qual o legado que deixaremos para os nossos filhos ou amigos? Quais os motivos que realmente te dariam orgulho ao saber que as pessoas que você ama fecham os olhos e lembram de você? Falando por mim, posso dizer que não quero que sintam orgulho das minhas notas ou títulos, juro que não faço questão disso; não quero que sintam orgulho pelas madrugadas que eu passei estudando, definitivamente quero algo que tenha vida própria. Eu quero é que lembrem do meu sorriso, dos meus dentes escancarados, da minha espontaneidade, na minha fé nas pessoas e no valor imenso que eu dou ao amar e ao amor. Isso sim é um bom legado a se deixar. Por esses motivos eu acredito que vale a pena a nossa breve passagem através dos passos da existência.

Finalizo esse texto com aquela pergunta clichê que faz todo sentido:
"A criança que você foi teria orgulho do adulto que você se tornou?" 


Ilustração Mônica Crema
O que você é enfim?
Onde você tem paixão?
Segue por ai
Eu não sou ninguém demais
E você também não é
É só rodopiar
Em busca do que é belo e vulgar
Tempo de Pipa - Cícero

Obs: Texto realizado para ser lido na festa de encerramento do 7º período da faculdade!

Existo ou desisto?

(Sempre)
Eu erro
Eu tenho pressa
Tenho defeitos
Ajo de mau jeito
Eu sou humana  -

(Eventualmente)
Eu tenho crises de choro
Eu grito
Eu xingo
Eu quebro
Não sou de ferro -

(Acontece...)
Eu reclamo
Eu humilho
Eu cobro presença à tua ausência
Eu me vingo e me ajoelho implorando teu abrigo
Sou assim contraditória  -

(Às vezes)
Eu sinto inveja
Eu não entendo
Eu não escuto
A tua existência não percebo
Sou intolerante
Desculpa te desapontar
Pelo menos pude rimar  –

Não acho feio ou doentio os meus labirintos; patológico é andar sempre em círculos a procura do próprio rabo por não conhecer suas bordas e limites. Às vezes o nosso maior erro é negar a imagem feia que reflete e vomita o espelho. Buscamos a perfeição, mas somos incapazes de respeitar os nossos próprios “não”  –
Sou o avesso
Moro na contracapa
Escuto o meu lado b
Existo num sopro
Vou e voo com os pés no chão
Eu sou só um grão

(Eu me nego a negar quem sou)


"Me olha da onde estiver que eu vou te mostrar que eu to pronta..."

Geralmente a saudade não me invade tanto ao ponto de eu notar que o senhor não está mais aqui, a saudade é leve, como se fosse de uma viagem ou uma saída rápida. Eu não sei porque, mas já conversei com pessoas que também perderam familiares (tão) próximos e todas concordaram comigo ao dizer que parece que tais pessoas não morreram, eu não sei bem explicar, é como que se "a ficha caísse" seria insuportável a dor. Isso também não tem nada a ver com vida após a morte ou céu e inferno, na verdade eu não quero criar expectativas com o que existirá após a minha morte, tento deixar a vida me surpreender por agora (fecha parênteses). No meu dia a dia eu ajo como se o senhor não tivesse morrido ou até mesmo como se nunca tivesse existido (desculpa), quando digo "nunca existido" não falo sobre não sentir a sua falta ou não lembrar de você, eu só não sei explicar, pode ser até mecanismo de defesa mesmo, enfim. Estou sentindo a sua falta e não é (só) porque o seu aniversário é daqui a pouco. Sinto sua falta porque seu silêncio está tão presente, e ele grita; sinto sua falta porque onde era festa, agora é fuga. Eu só sinto sua falta. Queria deixar escrito aqui porque o tempo pode passar e tenho tanto medo das memórias sobre você saírem de mim, irem embora... Sei que nunca fui de fazer declarações de amor para o senhor, mas eu demostrava isso e isso acalma meu coração, eu dançava com você (quando bêbado, pois sóbrio tu eras bem chatinho rsrs), eu cantava com você, eu quebrava o gelo do whisky para você, eu te amava. Eu te amo. Não consigo escrever nenhum texto sobre você sem chorar, talvez porque quando a ficha cai eu sou atacada por tantas memórias, e a saudade está (verdadeiramente) ali, que até as coisas que antes eram ruins, hoje nem são, eu queria as coisas ruins. Como amo as coisas ruins. Eu te amo. Estou sentindo a sua falta porque só você brigava comigo por ser tão escandalosa vendo um jogo. Estou sentindo a sua falta porque não existe mais televisão na garagem e família reunida. Estou sentindo a sua falta porque o último bolão da copa que tinha seu nome foi em 2010. Estou sentindo a sua falta porque o senhor cuidou de mim. Estou sentindo a sua falta porque hoje quando amanheço o dia estudando ou vendo filme ninguém vem arrastando a sandália e dizendo "Amanda rapaz, essa hora? olha a energia". Estou sentindo a sua falta porque ninguém me diz que estou de-fi-nhan-do e que preciso comer. Estou sentindo a sua falta nos detalhes, porque o amor está nos detalhes e hoje, por saber bem o que é isso, sou muito ligada aos pequenos detalhes e presentes que a vida me dá. Eu queria pegar mais uma vez na sua mão quentinha, queria dá mais um beijo na sua careca, queria mais um dia te ver fazendo a barba, queria te pedir mais uma vez para comprar uma coca-cola para o almoço. Queria tanto, mais tanto, acordar com Amado Batista tocando, o senhor na cadeira de balando com o seu boné, meus tios chegando, vocês brigando... Como eu queria, mas não queria mais uma vez, pois não iria saber me acostumar a abrir mão disso tudo de novo. Eu queria todo dia. Porque quando eu quero eu quero muito. E eu já não consigo lembrar do nome ou letra daquelas duas músicas que o senhor cantava...
Sinto a sua falta.



   

Estou em milhares de cacos

Adriana Calcanhotto está cantando no meu ouvido aqui agora. Ela diz que quer que eu volte, que eu vá para algum lugar e quer que eu olhe para ela. Não quero voltar Adriana, repito várias vezes tentando acreditar nas minhas palavras que se solidificam em forma de pensamento. Adriana começa a cantar outra súplica aqui, acho que ela precisa de um abraço, fala de umas cartas que precisam ser devolvidas, "isso é o de menos" penso eu ao ouvi-la. Meio pensativa me pergunto por que que as dores fazem tanto sentido quando traduzidas em canções, textos, em lágrimas? E por que ela é tão convidativa? É como tomar banho em dia frio, você coloca o pé e as circunstâncias te fazem entrar de corpo e alma. Que coisa complicada! Saímos com mais frio ainda e passamos meia hora enrolada em posição fetal esperando e pedindo descontroladamente para o maldito frio ir embora. Vá embora "que o que você demora é o que o tempo leva". Não sei bem ao certo para qual lugar.

Entendo bem essa dor e drama que Calcanhotto vomita, aliás, entendo a minha própria dor. Talvez nem se trate de dor, mas da visualização por outro ângulo da cicatriz deixada, fincada; aquela cicatriz que em dias frios doi, gela, aquela que mesmo tendo sua presença notada psicologicamente é mais concreta do que toda a subjetividade do poeta. Mesmo prestando atenção em todos os meus detalhes e em todas as minhas cores, mesmo divertindo gente e chorando frente as suas palavras, mesmo não negando ao mundo os meus sentimentos e becos sem saídas eu ainda não sei o motivo desta minha perda momentânea da razão ao escutar sobre as contradições e visões enquadradas da cantora em questão. Talvez tenha rolado uma identificação. Talvez. 

Eu aqui expondo tantos questionamento e pensando em tantos argumentos me viro para Adriana e ela está submersa no mundinho egoísta da sua dor, só faz perguntar pelo seu amor. "Meu amor cadê você? eu acordei não tem ninguém ao lado". Acho que o amor da Adriana já tem outro amor, acho que ele está habitando outra cama, outra alma . É sempre assim. E se é para falar de amor eu bem sei, nossa como eu amei, me lembro bem de como me sentia especial em poder sentir algo tão grande e tão frágil ao mesmo tempo, lembro do orgulho que tinha em ser a namorada dele. Sabe quando você consegue pegar a palheta do seu cantor favorito do mundo e sente o maior orgulho de si? ou então aquele orgulho de ter seu livro autografado pelo autor que te arrancou lágrimas e sorrisos com as suas palavras? Pronto, eu amei e tinha esse sentimento de que eu iria transbordar a qualquer momento de tanto orgulho... 

O tempo e o orgulho passaram e eu percebi que a palheta era de plástico e que o autógrafo resultava do movimento de uma caneta no papel, movimento este reproduzido em tantos outros papeis só tendo a preocupação em modificar o nome para quem a dedicatória foi direcionada. É neste momento, nesta breve pausa entre o real e o imaginário, que a gente se pergunta se amou a pessoa ou o valor -indevido- que direcionamos a elas. Palheta se perde, livro de molha e as palavras se desfazem.

"Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?"

É Adriana, sei bem como é estar em milhares de cacos, já estive. Hoje sou remendos. E como um todo remendado não sei onde acaba os limites das minhas fronteiras. Não sei até que ponto suas músicas falam de mim e muito menos onde meu texto se encaixa nisso tudo. Você se pergunta pra quem canta, eu para quem escrevo.


 
Fanpage Mônica Crema







Palavras são erros e os erros são MEUS

Faz um tempo que venho escrevendo de caneta no meu caderno. Na minha vida também. É porque hoje me parece que o que me faltava era aceitar a certeza da incerteza ou ao contrário! Com isso, eu buscava a solidez de uma forma que as situações líquidas não saciavam a minha sede e eu sofria com os lábios secos por não saber experimentar e viver o que os líquidos escorriam sobre mim... Talvez a insatisfação direcionada por mim a estes líquidos ainda escorra pelo meu rosto, mas hoje solidifico o seu caráter metamorfósico  na minha alma. Hoje escrevo de caneta porque aceito os meus defeitos e meus erros (ou tento assim fazer), escrevo de caneta para aceitar as minhas palavras erradas e letras trocadas, assim fica mais fácil de aceitar quando passo por cima dos meus estados e evaporo, desaparecendo. Escrevo de caneta no papel para deixar registradas as minhas vontades e demandas e para entender quando os papeis referentes à minha vida são trocados tornando, assim, as letras irreconhecíveis.

Não quero o medo do lápis, não quero sua fuga e barulho, não quero apagar quem eu fui ontem ou quem, eu hoje, desejo ser amanhã. Escrevo de caneta porque meus erros e arrependimentos ficam em evidência e mesmo que eu passe corretivo por cima ainda existirá o volume em branco que se destoa do restante da folha do meu caderno, do restante da minha vida. Os lápis deixam vazios mal resolvidos, canetas deixam cicatrizes, prefiro a lembrança da minha falha ao falhar continuamente por ter apagado as minhas fraquezas, por ter apagado quem fui, por ter tentado me apagar e me reescrever sem respeitar as minhas próprias pautas.

Escrevo de caneta porque aprendi que mais importante do que não errar é acertar no respeito direcionado a mim, é aceitar a imagem que me olha no espelho. É, simplesmente, com tudo que o verbo SER carrega consigo.