"Num indo e vindo infinito..."

Tem coisas na nossa vida que vive nos chamando, geralmente são coisas e fatos que fazem parte de quem nós somos ou lutamos para não ser, sabe? Existem mares muito devastadores, os quais entramos sem ter muita noção da sua profundidade e, quando pensamos que vamos conseguir mergulhar, somos engolidos por eles. Tão bonitos e tão poluídos são esses mares que me cercam. Quando há o esclarecimento que tais águas não nos fazem bem, começa a luta que faz parte do processo de aprendizagem de nadar contra a maré. Dói demais nadar contra a correnteza, aquela que suga, que é invasiva, aquela que não me deixa discursar o meu real desejo de nadar; todavia, são as águas em que me reconheço, são as águas da minha nascente... fica difícil.
Por muito tempo eu não entendia o motivo de estar afogando. Talvez eu ainda não saiba, mas as próprias águas me ensinaram que eu posso fluir. Portanto, escolhi ir além e estou descobrindo o meu próprio continente, os limites que as minhas águas conseguem conquistar. Às vezes as minhas águas encontram aquelas outras águas poluídas. Às vezes eu me pego sem controle do meu fluxo, do meu movimento e isso ocorre quando as águas se misturam, fico sem saber onde estou.
E, com isso, vou filtrando minha existência. Aprendendo com ela a lidar com minha história e com cada pingo meu que possui uma potência tão tênue. Tão híbrida. Mergulho nas minhas próprias águas para saber qual parte de mim ainda pode me afogar e vou aprendendo a boiar quando minha maré enche. Porque nenhuma água é mansa, nenhuma água é pura. Há sempre multidões nos mares.

Foto do google

Chovendo

Hoje eu sou chuva
Porque resolvi desaguar
Porque resolvi transbordar
Porque resolvi pingar cada gota minha que não me preenche mais
e continuo pingando
e continuo desaguando o que não mais me cabe. 

Quando eu chovo, é porque a enchente não aguenta mais residir em mim
Água parada não possibilita o florecer
E, com isso, permito que minhas águas decidam novos locais
e elas seguem o fluxo
e passam a habitar novas possibilidades
Novas estiadas
Chovendo vou conhecendo novas esquinas e novas formas de me tornar sólida

Transbordo, me perco
e tudo vai embora
Às vezes, tudo volta
Porque o percurso pode mudar de direção.
Não tem erros ou acertos no caminho das minhas águas
Quando se está chovendo, o caminho é incerto
E a única certeza é que estou em movimento
Sou movimento
E sigo.


Como um sapato velho...

O problema começa quando ele nem precisa começar para ser um problema, o problema está justamente no fato que causa a não percepção da sua existência e quando finamente deixamos que este, o problema, emerja à superfície é um acontecimento que nos deixa surpresos. É como aquela sapatilha que usamos há tempos, mas que passa a machucar fazendo calo só agora, entende?! Como se alguma coisa tivesse ativado o seu material chinfrim, o que passou a castigar os meus pequenos pés.  Talvez, até mesmo o fato dela ser velha tenha sido a causa do meu martírio ao caminhar; acredito que ela já conheça os meus passos e esteja apenas sinalizando que agora eu devo peregrinar por outros caminhos. Quem sabe...

Daqui até ouso e ouço ela falar: tu tas indo pelos mesmos caminhos e caindo nos mesmos buracos, preciso fazer doer para te fazer parar? Talvez sim, querida sapatilha, infelizmente tem coisas na vida que levam tempo para que se possa escolher tomar novos rumos, outras vezes nem se trata de escolha, sabe?! Porém, sigo caminhando e esse seu recado me mostra que eu não preciso de você para ir traçando o que quero para o meu hoje.

O plano é ressignificar esses calos para que eles curem e não me machuquem quando eu for andar com novos pares. Escolherei os pares mais confortáveis para que estes combinem com a leveza e sutileza que almejo para o meu caminhar. 

Caminhemos, então.            
Foto de Hanna Kardenya

Carta sobre 2015

Hoje tive a sensação de que as notas de agradecimentos aos anos que estão indo embora estão cada vez mais preenchidas de reclamações, frustrações e desespero. Nenhum ano está sendo suficiente e sempre evidenciam as mortes, as perdas e tudo que não deu certo. Não é que eu seja um poço de positividade, estou muito longe disso, mas esses escritos e discursos estão me deixando -um pouco- preocupada e cansada! Sei lá, a sensação que dá é que a vida está cada vez mais longe do humano e tudo está muito mecânico e robotizado. Se eu quero algo, tem que ser agora. Tem que ser do meu jeito. Tem que ser e ponto. E se eu não conseguir sou a pessoa mais sofrida do mundo e nunca mais terei uma chance de novo. Talvez as pessoas nem pensem em tudo isso ao evidenciar tudo que não deu certo, mas as reclamações são tantas que é essa a impressão. Me parece que a caminhada não importa, só onde se quer chegar. Só o fim, nunca o começo ou o caminhar.

Eu acredito que temos a possibilidade de escolher onde queremos estar e, se queremos tal lugar, cabe a nós buscarmos. Eu acredito que, por mais que eu queira uma coisa, ela não vai cair do céu, mesmo que eu acredite muito no poder que existe no simples e poderoso ato de acreditarmos. Eu acredito que muita coisa ruim acontece, está acontecendo e sempre acontecerá na minha vida e no mundo todo, mas eu ainda posso escolher para onde olhar e focar, eu posso escolher sofrer eternamente ou aprender com a possível derrota e erros, pois eles existem e também fazem parte de quem sou e de onde estou. Não, nada disso é fácil e dói muito ter uma vontade frustrada ou uma frase silenciada dentro da gente, mas isso é a vida; querer que tudo seja sincrônico e perfeito não é a forma mais saudável de lidar com a realidade, na minha opinião.

Esse ano não foi fácil, mas eu aprendi e continuo aprendendo com ele o que eu nunca pensei que poderia aprender em tão pouco tempo. Aprendi com as dores e dessabores dos meus semelhantes e me reconheci em muitos olhares; aprendi a respeitar meus limites e até onde eu realmente consigo ir, a parar quando eu queria ir além. Aprendi a pedir ajuda e a deixar cuidar de mim, não é fácil. Aprendi que o amor é algo leve e que faz muito bem um relacionamento saudável. Aprendi e ainda estou aprendendo que eu não tenho condições de seguir por esses caminhos sem mãos segurando nas minhas. Me vi sendo sombra, me vi e não me reconheci, me vi e me amei. Estou aprendendo a me ver. A me perceber. Tive muitos medos e ansiedades, mas me vi dona da minha vida e se eu não quis estudar, não estudei. Se eu não quis sair da cama, não sai. E almejo seguir me ouvindo. 

Muitas das minhas escolhas e metas não são fáceis, mas são as minhas escolhas e formas que escolhi seguir com a minha vida. Não sou responsável por como me veem, mas sou responsável pela forma que decidir seguir. Se amanhã eu quiser ser diferente, tentarei e buscarei ser. Não esperarei o ano novo, farei o possível para seguir minha voz interior no momento em que ela falar dentro de mim, o que pode ser a qualquer momento. Assim como a vida.

E é por isso e por outros motivos que eu desejo "Feliz Ano Novo" todos os dias, que possamos reclamar menos e ter mais atitudes. Que esperemos menos pelos outros e sejamos o condutor da nossas próprias vidas. Desejo muito impulso e potência para os atuais e futuros voos.


Mas se eu tivesse uma máquina do tempo...

Oi vô, a quanto tempo não nos falamos, não é mesmo? Estou aqui hoje porque, como das outras vezes que te escrevi, a saudade bateu mais forte. Nossa, que saudade de você! Que saudade mesmo. Já se foram quatro anos... tanta coisa aconteceu de lá pra cá e tanta coisa permaneceu intacta, acho que você sabe do que estou falando! Estou na reta final de uma parte muito importante e difícil da minha vida e queria muito você aqui perto vendo tudo isso, isso tudo é por nós, é por todo orgulho que sei que o senhor sentia de mim. Obrigada! Quando começo a duvidar das minhas possibilidades tento lembrar do seu olhar tanto de orgulho quanto de silêncio; tento lembrar da sua forma de apreciar as coisas através do seu modo 'filme do Chaplin' de ser. Você não era de palavras, era de expressões. Era de olhares. Acho que eu nunca te falei isso, mas tenho muito orgulho de ser sua neta, sua filha, aquela que você protegeu de um passado dolorido. Gratidão, vô. Gratidão por cuidar de todos nós como o senhor fez tão só e tão forte. Cada vitória, todas elas, eu também dedico a você, porque você foi uma peça importante demais nesse meu roteiro de vida. 

Eu encontrei uma máquina do tempo que não funciona mais, sim, uma de verdade, mas ela não funciona. Tentei de tudo, mas ela não funciona, infelizmente. Enfim, perguntei a várias pessoas para onde elas iriam, se para o passado ou para o futuro, e sabe para onde eu iria? Iria para fevereiro de 2010 quando cheguei em casa chorando por ter passado no vestibular, você levantou do seu almoço e me encontrou na sala de casa com todo aquele olhar de orgulho e admiração por mim, nunca esquecerei daquela sensação, daquele nosso encontro tão genuíno! Poderia ir também para aquele dia em que o senhor estava bebendo aqui na frente de casa e eu sentei ao seu lado e começamos a cantar alto um bocado de músicas aleatórias. Sem medo do amanhã! Eu iria para qualquer dia em que me fosse permitido te dizer gratidão por tudo e eu te amo. 

Você foi a minha primeira grande perda, vô! Dentre tanta coisa que o senhor me ensinou, essa foi uma das maiores lições: amar a pessoa enquanto temos tempo e buscar ser a nossa melhor versão antes que chegue o duvidoso e doloroso fim.

Eu te amo, como sempre.


50 tons de vermelho

Diante dessa luz baixa, dessa música instrumental de fundo, desse aperto leve e profundo no peito, diante de toda essa história que me veste e me alcança, diante de todos esses medos e faltas e vazios e ecos; diante dessa alma que ainda tem tanto para ser e expandir, diante de todas essas palavras repetidas e do clichê que é a vida, diante dessa rima pobre e desse ritmo puro: eu me rendo. E vou me rendendo com rendas coloridas e, seguindo por caminhos desconhecidos e familiares, remendos vão me cobrindo e me descobrindo mais forte. Sigo dando forma ao meu existir e me desconheço nos reflexos dos cacos de vidro espalhados pelo chão...

Há cansaço. Ando com todas essas feridas expostas ao sol. Vejo-me odiando o sol. Vejo-me questionando o seu papel na minha vida. Eu deveria ser a minha maior estrela... Não sei. Talvez eu nunca deixe de arder, talvez eu nunca deixe de doer, talvez a solução seja a eterna dúvida.

Se ao menos eu fosse congruente ou falasse a minha língua de forma fluente eu não iria aos lugares que não combinam com os meus passos, eu não falaria por meio de linguagens efêmeras, eu não deixaria o sol me arder, mas é tão difícil se manter sempre na sombra, entende? 

É necessário dar continente ao calor que vale a pena a ardência, pois existem fogos que formam queimaduras que duram uma vida, mas existem outros tons de vermelho que se assemelham ao fluxo de vitalidade que caminham firmes e persistentes pelos labirintos que constituem nosso corpo.

A vida não é sobre doer ou não doer. Sempre doerá. A questão é saber quais são os tons de vermelho que valem a ardência, entende? A questão é ter em mente qual fogo nos aquecerá.

Imagem Google

O meu eu engaiolado

Não. Ninguém é culpado pelos meus desafetos e mau jeito, ninguém é culpado pelos meus medos ou desejos. Somente eu. E isso é algo difícil de dizer em voz alta. Tenta! É sempre mais cômodo e menos doloroso culpar os outros e Os Outros pelas pausas e lágrimas que nos preenchem. É difícil nos responsabilizarmos pelas coisas que nos atingem e machucam; é difícil ignorar humilhações e, muitas vezes, se torna até mais fácil nos vestirmos com os fios que as tecem. Entende?!

A verdade, pelo menos a que aparece para mim neste momento, é que somos os principais suspeitos, culpados e condenados por nos engaiolarmos. Sim, nós nos engaiolamos, prendemos nossas vidas e tiramos a nossa própria liberdade. Somos como os pássaros que cantam, mas não podem voar. A diferença é que somos nós que cortamos e anulamos o valor de termos asas. Para onde voou a nossa capacidade de nos permitirmos a leveza de um voo ameno, sem culpas?

Somos o que nunca fomos e usamos palavras que nunca foram nossas para falar sobre nós. Temos uma necessidade infinita de mostrarmos o nosso eu estático. O nosso eu imóvel. O nosso eu inexistente. Possuímos uma necessidade, quase que vital, de ter um manual de quem somos e de como o mundo é. Talvez isso faça parte da nossa ilusão contínua de que temos o controle das nossas vidas. Será que temos? A vida está me mostrando, cada vez mais, que não.

Só sei que nos engaiolamos cada vez que deixamos o medo falar mais alto; nos engaiolamos cada vez que confundimos a nossa intuição com medo e deixamos de escutar a nossa voz interior; nos engaiolamos, assim repetidamente, quando não enxergamos o hoje e deixamos o passado nos vestir. Nos engaiolamos, da mesma forma, quando nos prendemos ao futuro improvável ou quando vivemos o hoje de forma tão louca que não conseguimos planejar mais nada nas nossas vidas. Resumindo: ficamos entre as grades cada vez que habitamos as extremidades dos pilares que compõem a vida.

Não sei.
Só acho que esse texto era para estar escrito na primeira pessoa do singular.

   

Notas sobre o agora


Mas o que constitui o fim de algo, se não a possibilidade de um novo começo? Às vezes nos prendemos tanto ao fim de um ciclo que não nos permitimos explorar novos labirintos internos, o que nos faz esquecer do fato de que existem coisas na vida que exigem a retirada da vírgula, que pausa, e a presença do ponto que marca um final. Que saibamos então respeitar os nossos limites que transcendem a questão de saber ou não usar a pontuação e que busquemos uma felicidade que vem de dentro, deixando-a transbordar para fora quando estivermos prontos. Que o nosso maior medo seja o de continuar vestidos com aquelas roupas que não nos cabem mais. Que, além de tudo, a gente se permita, porque a efemeridade da vida torna isso necessário. Entende?
Feliz Ano Novo!


(texto de 2014)

Para onde foi a resiliência?

Em um dicionário qualquer desses online, diz que a resiliência é um conceito da física que significa a "propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica". Como bons humanos demasiadamente humanos que somos, pegamos o conceito emprestado e fizemos uma linda metáfora em relação ao nosso comportamento nesse mundo. Quando no sentido figurado, o conceito significa "a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse etc. - sem entrar em surto psicológico". 

Eu fazia parte do grupo de pessoas que acha inspiradora essa palavra, mas de uns tempos, experiências, observações, vivências pra cá venho pensado muito a respeito desse significado metafórico. Na física diz que os corpos voltam à forma original, não podemos negar esse aspecto do conceito, entende? e é justamente esse aspecto que está me incomodando. Será mesmo possível passarmos por tudo isso e ainda retornarmos à forma original que tínhamos? E será que existe uma forma original de nós? Sim, eu acredito que há uma essência que permanece em cada ser, mas não acredito em uma forma original e não acredito que seja possível retornar ao que éramos depois de algumas experiências traumáticas ou até mesmo empáticas. 

Às vezes o que sinto é que muitas pessoas se obrigam a pertencer ao grupo dos resiliente, ao grupo de pessoas que, mesmo passando por um monte de merda na vida e morrendo de vontade de chorar para sempre, compartilham uma imagem no facebook falando sobre a força e sobre a experiência da volta à forma original depois da tal deformação elástica. Não, não tenho nenhum problema com você que possui essa força quase que sobrenatural, só estou tentando dizer que entendo as pessoas que não possuem tal dom. E acredito que mesmo aqueles que possuem tão característica não voltam a essa bendita forma original.

Percebo juntamente o contrário. Muitas pessoas adoecem por não querer sofrer, por não aceitar certas coisas que acontecem, por não entender que nem tudo sempre são flores. Muitas pessoas entram em 'surtos' por serem tão rígidas com a vida, com quem são; fechadas com a tal forma original de si mesmas. Compreende? Muitas pessoas não se permitem aceitar os fins, acham que pedir ajuda é coisa de gente fraca, acham que chorar não é algo para se orgulhar. E nem de longe estou dizendo aqui que sejam coisas simples e fáceis.

Se querem se denominar resilientes que assim o façam, mas por favor, se permitam certas coisas. Por mais dolorosas e rasgantes e cansativas e tenebrosas que algumas experiências são, elas trazem consigo seus ensinamentos. Às vezes, não sei se felizmente ou infelizmente, precisamos passar por certas coisas na vida e eu não vejo como seja possível voltarmos a nossa forma original. Não sou hoje quem eu era antes de nem imaginar perder as pessoas que já não estão perto de mim. Não tenho hoje a mesma forma corpórea de quando eu tinha certos medos e traumas. Não sou aquela que antes se calava frente a certas situações e pessoas. Não sou a mesma depois de cada frustração, celebração, conquista, perdas e vitórias que me vestem hoje e que vão me vestindo. 

Aprendi que há certas deformações elásticas que nos modificam em um processo contínuo. Então, peço que sejamos corpos que fluem, não que se enrijecem. Que tenhamos consciência do casulo que nada mantém, que nada aprisiona. Que possamos chorar, sofrer e ter essa péssima sensação de pequenas mortes diárias que algumas experiências trazem. Que mesmo sabendo que tudo passa, que passemos por tudo isso deixando-nos transformar e não petrificar

Imagem do arquivo pessoal de Hanna Kardenya



O samba malandrinho do meu coração

Eu sou uma mulher cheia de sonhos e todos eles são bem recheados de medo, insegurança, falta de confiança e todas essas coisas que nos impedem de acreditar na vivacidade e na possibilidade deles se tornarem reais. Mas eu tento ir além. Eu sou cheia de pausas e até pontos finais; muitas vezes precisei abrir mão dos meus planos para começar do zero, tive sim, com todas as dores no peito, que abandonar todos aqueles cenários que já possuíam cor e espaço na minha alma; precisei, pouco a pouco, tomar outros caminhos para recomeçar as minhas andanças e reaprendi a dançar ao som das minhas dores. Não foi e não é fácil. Ninguém disse que seria! Precisei ter foco e seguir, com lágrimas ou sorrisos, o que eu realmente queria e querer era uma certeza, menos mal. Eu já repeti inúmeras vezes um acontecimento que doeu só para ver se eu não tinha deixado algo escapar, só para achar qualquer motivo que tornasse capaz a retomada à mesma estrada. E retomei. E doeu mais ainda. Aprendi que a dor não é motivo para desistência e que talvez o que nos faça sair daquela velha estrada seja o fato de sabermos andar de olhos fechados desviando de todos os buracos que almejam a nossa queda. Afinal, me diga, porque se manter entre buracos se é possível a escolha por ruas mais amenas? Chega uma hora que o buraco nos alcança, entende?! mesmo sabendo nós todos os seus possíveis nós.

Não temos o controle total das nossas vidas, ai de nós se tivéssemos. Teve outra fase da minha existência que eu era capaz de fazer de tudo para ser vista, doia rasgadamente cada vez que tais olhares me eram negados, mas aprendi que cada pessoa só olha para o que é capaz e que não dependia só de mim o sentimento que me era direcionado. Eu senti na pele o desamor, repetidamente. Várias vezes acreditei que eu não teria forças para desenhar novas possibilidades de existir. Várias vezes listei todos os motivos pelos quais eu não merecia ser feliz. Repeti, várias vezes, que eu não conseguiria de ir além dos meus planos. Tudo isso várias vezes. E ainda hoje, vez ou outra, caio no mesmo abismo; ainda bem que tal abismo, pelo menos o meu, tem fim. Independente do sentimento de derrota, sempre acreditei no meu nado e lá no fundo, do meu pensamento ou do abismo, eu sei, não importa quando, que voltarei a nadar.

E quando eu estou de volta à superfície meu sorriso é maior do que tudo que foi e não é mais, sabe? Eu deixo, sem arrependimentos, que a felicidade tome conta de mim. Sim, já acordei nas madrugadas barulhentas com o meu coração pesado, a dor era tão grande que a sensação era como se tivesse uma mão envolvendo com força o meu coração. E talvez houvesse mesmo uma mão ali que não fosse a minha. Mas, voltando à felicidade, sou capaz de acordar o mundo com o som do meu coração palpitando um samba bem malandrinho. Pense num órgão malandro esse meu, ele não só bombeia sangue, ele bombeia muita vitalidade.

Enfim, estou aprendendo, porque a vida é esse eterno processo, que os conflitos que nos pausam são os mesmos que movimentam a nossa existência. Eles preenchem as nossas neuroses cotidianas e não adianta tentar viver sem eles. Certo? O que posso fazer é vestir uma roupa bem leve para passar por eles da forma mais saudável possível.

No meio de tudo isso haverá um filme e muita comida na cama, apenas porque eu mereço.
Imagem Google