Um pequeno recado para ela ler ao acordar

Sei que você se chateia quando eu me meto na sua vida, sei que faz de tudo para me afastar, mas nesse momento estou sentindo essa necessidade enorme de falar, desculpa, mas eu sempre te acolho com as minhas palavras proféticas mesmo que elas contenham alguns singelos espinhos. Quero que amanhã ao acordar, antes de preencher essa mente de pensamentos negativos e destrutivos, você leia esse pequeno texto, que é bem simples, mas nasceu da nossa conversa de hoje cedo quando você me listou seus milhares de medo.

Queria entender de onde vem tanto medo, sabia? principalmente de onde vem esse medo monstruoso de errar. Sim, sei que eles fazem parte da vida, mas o problema é que você está os deixando tomar conta dos seus atos, que já são tão poucos devido a tantos outros medos. Não faz isso contigo, menina, logo você que aprendeu a não ter vergonha dos seus erros, hoje os teme tanto que se veste de medo. Acho que você aprendeu bem a evidenciar seus erros, mas aprendeu tanto que se tornou incapaz de entender que nem todos precisam de tanta atenção, você precisa aprender a abrir mão dos medos que arrancam teus cabelos. Entende? Eu consigo perceber o quão aterrorizante é esse novo ambiente, não estou te julgando nem nada, mas você precisa parar para escutar os próprios pedidos de socorro, e os pedidos dos outros, para que a sua resposta seja congruente, até porque não adianta dar respostas aleatórias à vida esperando que ela te ovacione e te cubra de elogios, isso é viver de futuro, menina. Talvez você esteja errando tanto por visar, através dos seus atos, os possíveis acertos e não o inevitável aprendizado, este vem independente do resultado, entende? Para de se auto sabotar e começa a dar o melhor de si nos seus atos lançados ao agora, isso sim é viver no presente.

Se joga nesse mundo, menina. 
Que eu posso segurar a tua mão até que você se sinta em casa.

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Querido amigo,

Querido amigo, você já leu o livro As Vantagens de Ser Invisível? pois bem, o moço protagonista da história escreve cartas a um amigo que, acredito eu, ele conhece, mas o menino, supostamente, não sabe quem é o anônimo remetente. Enfim, tenho coisas para te falar no anonimato, mesmo você me conhecendo, ainda e misteriosamente, tão bem. O que acontece, caro amigo, é que às vezes, só às vezes mesmo, sinto a sua falta, mas a diferença é que agora não há a presença daquela dor latejante e rasgada que me vestia outrora, lembra? Pois é, venho trocando de pele há um tempo e isso pode ser algo bom e ruim ao mesmo tempo, como a vida e suas inúmeras contradições bem como você sabe.

Na verdade, do nada hoje eu fiquei imaginando como seria esse mundo sem você, sem o brilho dos teus olhos pequenos ao sorrir, e  simplesmente o mundo não seria, sabe? Pelo menos o meu mundo não seria mais tão mundo assim. Eu aprendi a te ter de longe, aprendi a te querer bem de longe, aprendi a te criticar e a brigar contigo, nem que seja por pensamento, de longe, aprendi a sorrir contigo de longe, mas eu não seria capaz de aprender tão cedo a saber viver sem a sua existência nesse mundo. Sua existência, e toda a incógnita que a acompanha, é necessária demais. Muita gente chama isso de amor genuíno, já ouviu falar? Eu só chamo de amor.

Você pode estar se perguntando neste momento o porque de eu estar pensando na sua suposta morte e não, nem por um segundo quero que a sua vela se apague. Não é isso, é porque muitas vezes me utilizo deste cenário para entender o valor da vida e das pessoas que preenchem ela, e isso não tem nada a ver com ideação suicida nem nada desse tipo. Sabe quando alguém morre e só ai nós percebemos os valores da pessoa, os quais são muito maiores do que qualquer outra coisa? é mais ou menos isso, eu imagino o cenário e imagino tudo que eu deveria ter dito e feito para a pessoa, como ela está viva, eu vou lá e faço tudo que "imaginei". Deve ser esse o motivo de eu estar te escrevendo esta carta.

Hoje eu vi uma pipa presa em uma árvore bem alta. Achei tudo aquilo tão poético e, imagina só, comecei a narrar o que eu via e sentia, como se eu fosse a voz de fundo de algum filme independente, os filmes de baixo orçamento me encantam; na verdade, tenho essa mania de ficar narrando a minha vida, como e ela fosse mágica ou trágica demais para eu vivê-la em primeira pessoa. Estou pensando nisso tudo sobre mim só agora. Nossa!

A vida é frágil, querido amigo, e muitas vezes eu sou a linha que costura e ressignifica os meus próprios remendos. Estou cuidando de você de longe.

(Quase) Sempre com amor,
Amanda
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Eu escolhi ser primavera

Qualquer tentativa de explicação seria rasa e não encheria teus olhos, também rasos, de emoção, muito menos de boas emoções. Só queria te dizer que tudo que eu fiz, todas as minhas fugas e expressões exageradas, foi para me esconder dos teus olhares de reprovação e do teu abraço sem braços, sem toque. Eu arranquei, pouco a pouco, cada folha minha para que você pudesse enxergar as minhas raízes, mas fiquei com frio e precisei correr para longe do teu vento malicioso. Sim, me despi, fiquei completamente nua ao tentar alguma aprovação tua, mas minhas raízes eram tão finas que o teu fruto venenoso nem se quer abriu espaço para as minhas plantas florescerem, você negou amor às minhas tímidas sementes, sementes essas que você, mesmo sem uma real intenção, plantou. Qual a culpa das minhas pétalas por querer o seu amor? Você não só se negou a me regar, como também riu das minhas folhas amareladas e hoje, no meio dessa floresta densa que me constitui, continuo rasgando e violentando cada folha minha. Até hoje, acredite, não aprendi a ser árvore diante deste sertão que é a vida. Na verdade, eu só queria mesmo que você entendesse que a importância da existência de uma árvore não se dá só pela aparência ou presença de folhas, é na raiz, meu querido cravo, que a força da vida adormece. A raiz permanece se ramificando quando há paredes em torno dela, ela se expande e se apropria do asfalto opressor; a raiz se mantém firme frente ao vento ou a chuva e a brisa, sutilmente, faz essas mesmas folhas rasgadas dançarem. Há música e amor nessas folhas amareladas e quando o meu caule se encontra nu as raízes continuam me sustentando viva à espera de uma nova primavera, porque sim, eu escolhi ser primavera independente dessa tempestade que é você.

Imagem: arquivo pessoal de Pérola Holder


"Aprendi com a primavera a deixar-me cortar 
e voltar sempre inteira." Cecília Meireles

"Somos feitos de silêncio e sons..."

Vou me formando diante de todas essas pausas entre as minhas dúvidas e frente a todas essas certezas incoerentes presentes nas nossas despedidas.

Me remendo com os pedaços de mim existentes nos outros e me completo com os pedaços dos outros que me vestem.

Minhas partes rasgadas são vistas como asas que me permitem voar em busca do sentido da desrazão e esse voo é tão subjetivo, tão silencioso.

Me deito encolhida na frente do espelho para tentar entender a real profundidade da minha condição de falta, de vir a ser. E sou no nada e nada sou.

Aceito minha breve existência nesse mundo e tento aprender com a própria vida o seu sentido próprio, com isso, não vejo motivos para tantos planos e me deixo levar pelos afluentes do vento.

Sofro, choro, grito. Amo, luto, olho! E tudo isso se faz poesia e tragédia dentro de mim. E tudo isso me é.
Viver é sentir o aroma dos sons e escutar o que dizem todas essas fotografias. É ler olhares e tocar, com as pontas dos dedos, o silêncio. É fazer do nada o nosso tudo mais profundo.

O meu viver acontece no fundo do poço e nas bordas do agora. Transbordar quem sou nada mais é do que respeitar meus infernos e meus céus.

A vida acontece nas vírgulas e não na pontuação que nós espera no fim da nossa jornada!

Hoje.

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"Desejo que você tenha a quem amar e quando estiver bem cansado que ainda exista amor pra recomeçar...."

Desejo que em alguma dimensão deste universo, existam pessoas que simplifiquem a vida e o processo de viver, pessoas que vivam de acordo com o que sentem e pensam, pessoas que aprendam e atuem diante dos medos que tem, só por saberem que são maiores que tais medos. Desejo ser uma dessas pessoas.

Desejo que meus defeitos sejam evidentes e que sejam respeitados da mesma forma com que as minhas qualidades são exaltadas. A linha entre o não e o sim é tão tênue que me perco ao tentar mapear o que em mim é negação ou afirmação. Desejo que entendamos o fato de que podemos ser muitas coisas ou a junção de muitas delas e que no final de cada fornada nos constituímos como um prato de medo, de amor, de encontro.

Desejo que entendamos que somos seres limitados e que nunca abraçaremos o mundo com os pequenos braços que temos, que isso não nos torna menores ou menos importantes, ao contrário, somos grandes por sabermos que precisamos uns dos outros para que o encontro seja estabelecido e o mundo seja devidamente explorado.

Desejo que abramos mão do controle absoluto da vida, que esqueçamos do "se" e do "quando" para que assim possamos nos vestir do agora. Que paremos de querer engolir o mundo em um só gole e saboreemos seus diversos sabores e dissabores, afinal, as tristezas, frustrações e pausas fazem parte do movimento do oceano que é o viver. Desejo deixar que a vida me surpreenda.

Desejo olhos que vejam o que não pode ser visto e ouvidos que escutem o silêncio e que diante da maior música que os meus lábios expressem sua verdadeira melodia. Que sejamos a rima e o refrão da canção.

Desejo que não tenhamos vergonha da pessoa que somos e que possamos nos reinventar todos os dias, que o espelho seja nosso amigo e que ele reflita a nossa verdade; que não mantenhamos as nossas gaiolas trancadas, pois elas limitam a nossa subjetividade.

Que critiquemos menos e acolhamos mais.

Que saibamos que mais importante que o lugar onde estamos é com quem estamos e por que estamos e que sejamos o lugar favorito de alguém.

Desejo que tenhamos "amor pra recomeçar", recomeço não só em 2015 ou 2046, mas todos os dias, pois a vida está acontecendo neste breve momento chamado presente.

Feliz ano novo! 

Eu te desejo não parar tão cedo, pois toda idade tem prazer e medo
E com os que erram feio e bastante, que você consiga ser mais tolerante
Quando você ficar triste que seja por um dia e não um ano inteiro
E que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero
(Amor pra Recomeçar - Frejat)

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"Eu quero ser feliz sem fazer todo esforço do mundo pra sentir uma pontinha de orgulho por estar aqui. Quero caminhar sem sentir um elefante embriagado se apoiando em minhas costas. Quero ser feliz sem querer ser."
Gabito Nunes
                                                                          

"Estranho seria se eu não me apaixonasse por você..."

Se eu estivesse apaixonada por você, não te falaria o que vou te falar. Se agora falo, meu caro, é porque o meu coração não pertence ao seu.

Se eu realmente estivesse apaixonada por você, não te falaria nunca que fico analisando tuas fotografias para ver se deixei algo escapar desse teu sorriso e ao te ver me sorrindo tremo, não sei se de frio ou de medo, sorte a minha não gostar de você.

Se por você eu estivesse apaixonada, negaria te dizer que fico a imaginar como será o teu beijo, teu toque, teu cheiro. Juro que não fecho os olhos, juro que não me demoro imaginando o nosso "final feliz".

Se eu estivesse apaixonada por você, passaria por cima de todas as minhas cicatrizes só para acreditar novamente nesse negócio de paixão, mas não estando apaixonada permaneço em reforma e não me desculpo pelos transtornos que causo.

Se de você eu estivesse gostando, ficaria preocupada com os seus pensamentos ao ler esse texto, "ela está apaixonada", sei que não pensarias que essas palavras são destinadas a você, pois pude perceber que fazes a linha dos que duvidam das boas intenções alheias; não se preocupe, aqui só há palavras aleatórias.

Se eu estivesse apaixonada, você seria a pessoa ideal para me retirar desse "abismo que é pensar e sentir", não sei ao certo o porquê, mas vi terras habitáveis e férteis em você. Acredite, eu moraria nesse teu sorriso.

Por você não sinto nada e espero que sintas o mesmo, pois "quem sabe  um dia por descuido ou poesia" não nadamos nesse mar de teorias rasas e sentimentos profundos...

Enquanto eu imortalizava essas palavras começou a tocar All Star de Nando Reis, eu mentiria se negasse que imediatamente pensei ser um sinal divino, mas isso seria se eu estivesse apaixonada por você. Ainda bem que não estou!

Estranho mas já me sinto como um velho amigo seu
Seu All star azul combina com o meu preto, de cano alto
Se o homem já pisou na lua, como ainda não tenho seu endereço?
O tom que eu canto as minhas músicas para a tua voz parece exato


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"Aqui eu também te amei."

Eu estava viajando por esses dias e parei em uma lojinha de artesanato onde a maioria das coisas à venda eram enfeitadas com os objetos da própria família da senhora dona do estabelecimento; todos os porta-retratos, por exemplo, estavam preenchidos com fotos antigas e recentes da família. Uma das fotografias que repousavam na estante, em preto e branco, mostrava a senhora junto ao seu marido, o ano era 1970 e na moldura tinha a frase "Aqui eu também te amei". Achei aquelas palavras tão poéticas quando relacionadas àquele cenário que resolvi usar a frase na legenda desse texto que dedico a você, afinal: aqui eu também te amei. Muito!

Mês passado eu fiquei fora de casa por quase uma semana e quando eu cheguei no domingo à noite a primeira coisa que eu notei foi a tua ausência. Aquilo doeu. Foi tão estranho não ter você ali me esperando depois de algumas doses da tua bebida preferida, foi estranho não poder ter pra mim a tua presença chateada ou aquela tua expressão de saudade. Mas mais estranho ainda foi sentir toda essa estranheza mesmo depois de três anos sem sua voz. Que saudade! Realmente, pude comprovar que a tristeza melhora depois de um tempo, acredito que isso ocorra por estarmos sempre no mesmo local, de uma forma bem ilusória parece que você vai chegar a qualquer momento, porém isso muda quando saímos dessa zona de conforto; me distanciar, voltar e não te ter por perto deu um choque de realidade, sabe? Eu percebi que você tinha ido embora e essas percepções cavam ainda mais aquele vazio que tua partida deixou.

Desde o mês passado voltei a te ver aqui em casa. Coloco minha janta e te imagino comendo na mesa e mexendo a colher do café, acordo e te vejo com o pão doce na mão para eu levar para a faculdade, largo da faculdade e lembro de levar seriguela para você ao passar por um senhor que vende frutas. Acho que esqueci que você habita outro plano, acho que tua presença está tão forte aqui dentro de mim que sou capaz de te chamar em voz alta. No final de tudo percebemos a quantidade de ouro que temos na mão e não sabemos, deixamos a rotina nos cegar e é só quando o ouro se transforma em joia que o seu valor é realmente percebido, queria ter aproveitado mais o teu brilho, mas você foi lapidado sem dizer um adeus suficientemente demorado para que eu entendesse o que significa a tua transformação.

Eu daria tudo que tenho para te ver mais uma vez, para escutar os teus passos arrastados mais uma vez, para levar água para você lá fora mais uma vez, para ficar chateada ao ter que pagar tuas contas mais uma vez, para quebrar o gelo da tua bebida mais uma vez, para te pegar nos bares mais uma vez, para ter que te explicar sobre a internet mais uma vez e dizer que estou acordada de madrugada por conta dos trabalhos da faculdade mais uma vez. Só queria mais uma vez ao teu lado, mas eu sei que eu iria te querer para sempre, porque sempre achamos que os nossos herois são imortais. E são!

Aqui eu também te amei.
Eu te amo muito.
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"Amor é solução e nós imensidão..."

Durante anos a tua ausência me doeu, mas durante os mesmos anos quando tu estavas presente, a dor aumentava, tua existência me machucava tanto e eu me sentia um frágil recipiente indesejado, sem tampa. Durante anos eu busquei quem sou na tua sombra, mas a ferida se alastrava e corroía cada vez que a tua sombra me assombrava, sempre; foram anos difíceis e o vazio dos teus olhos secavam a minha esperança de ser amada, de ser vista, e eu me culpava por não ser tão atrativa quanto os objetos que tu direcionavas admiração. Eu era apenas um objeto sem uso, sem valor, sem moradia e ainda hoje não entendo minha busca por abrigo em você, visto que em você só habita tudo o que não me dá brilho no olhar, você é tudo que um dia eu não quero ser, você é meu espelho ao avesso.

Nas imagens da minha vida você não aparece, mas com certeza terá seu nome nos créditos dela, porque sim, você me ensinou muito. Com sua falta de amor eu aprendi que este é algo que se constroi através de relações de trocas; com o sua ausência eu aprendi a ser e estar presente sempre que posso; com a sua grosseria e estupidez eu aprendi que uma conversa pode salvar uma confusão; com a sua existência turva e poluída aprendi a ser clara e expressiva. Tua vida medíocre me motivou à busca da verdadeira essência e valor das coisas e pessoas, afinal, tudo tem um sentido nesse mundo e o seu sentido na minha vida foi mostrar que existem seres humanos que dão vergonha só por existirem e que, por isso, eu preciso estar perto de quem me faça ser a melhor versão de mim mesma, isso não inclui o sentimento de nada que você me (faz)ia sentir. Eu posso ser tudo, principalmente verdadeira para deixar claro que não te quero mais por perto, acredito que já aprendi o que precisava absorver com você. 

Nós imensidão

Nessa vida é preciso aprender a espantar e assustar os próprios monstros, se não eles nos consomem e nos tornam eternas vítimas do seu horror. O papel de vítima tem seu aprendizado, mas estagnar nele só nos faz andar em círculos na nossa própria existência, quando nos demos conta estamos fechados nos mesmos problemas e sofrendo pelas mesmas situações. O passado fica mais leve quando nos permitimos a enxergá-lo  como algo que passou mesmo ele dizendo muito sobre o que somos hoje; no agora as coisas e situações e pessoas e motivos são outros e isso tudo pode modificar a nossa forma de existir e de existência. Às vezes a gente só precisa jogar nosso cardápio fora e deixar a vida nos surpreender com o seu tempero presente, afinal o passado azedou e o futuro ainda está sendo preparado.

Eu sou muito mais do que os seus olhos são capazes de ver e bem menos do que todas as suas expectativas em relação a mim. Eu te pediria para apenas me deixar ser quem sou, mas quem eu sou hoje não almeja mais que você me perceba. Então apenas vou deixar a minha vida seguir, pois às vezes o melhor remédio é abrir mão do controle vital que nunca existiu; remota, é nossa ilusão de pertencimento a este mundo, pertencemos mesmo aos inúmeros momentos que nos atravessam. A vida se forma em pedaços e é em cacos que a gente se despede da vida.

Tanta estrada, tanto tempo, tanto pra sonhar
Pra realizar, perceber em si
Que amores vêm e vão e nunca vêm em vão
são sentimentos leves
Amor é solução e nós imensidão
 Mesmo sendo tão breves aqui
(Tanto - Sons de Varanda) 






O (a)mar.

Eu preciso ir embora. Não posso continuar.
O meu barco estava ancorado e agora as tuas palavras me obrigam a partir deste lugar tão familiar e assustador ao mesmo tempo.
Hoje eu pulei do barco e aquelas nossas canções me engoliram como ondas destemidas
Eu prometi a mim mesma que não permitiria mais me afogar nessa tempestade de conflitos que há dentro dos teus olhos profundos.
Profundos como o amar ainda presente nas minhas terras desertas; nas minhas terras interditadas.
Eu desaprendi a nadar, acredite!
E as gotas das tuas águas não se envergonham ou empalidecem ao invadir e deixar os meus olhos marejados.
Eu, que antes era o teu próprio cais, hoje sou apenas uma simples folha que nada sozinha procurando por abrigo e fugindo desse caos.
Esse mar não cabe dentro de mim e transborda destruindo toda essa cidade de papel.
Ele é tão intenso que eu já nem sei mais se uso as metáforas ou sou usada por elas ao ousar em nadar dentro dessas águas tão turvas, tão tuas.
Acredito que nesse momento as metáforas me  escrevem
e esse mar se constitui apenas como o meu eu poluído
que ainda teima em habitar um ser vivo,
Você!



As certezas e as dúvidas andam lado a lado

Sim, estamos virando robôs! Somos a própria tecnologia maquiada de seres humanos, cada vez mais nos negamos o sentir, nos negamos em negar que somos frágeis e quebráveis! Apenas nos negamos. Não aceitamos as tristezas, as dúvidas, o medo, o vazio e vamos, com o passar do tempo, nos preenchendo de uma ilusão que teima em mostrar ao exterior uma autossuficiência que, na verdade, inexiste! Resolvemos tudo engolindo um comprimido ou comprimindo um sorriso esmagado por mentiras, por automentiras! Parece que o maior pecado do mundo é mostrar que sim, necessitamos de carinho, de colo, de amor, de um ombro amigo; às vezes só o que queremos é chorar em silêncio ao lado de um alguém para escutarmos daquela boca preocupada que tudo vai ficar bem, mesmo que seja muito difícil visualizar um final feliz naquele instante. Não olhamos nos olhos alheios por termos medo de não sermos compreendidos, não conversamos mais com os desconhecidos, nós só nos fechamos na nossa carcaça de lata e trancamos todas as portas para não sermos incomodados e é nesse momento em que vamos nos perdendo de nós mesmos, mas afinal, quem somos nós? De nós somos feitos ou o laço nos embrulha?



As coisas cotidianas estão ficando tão raras que quando alguém faz algo "humano", como dar um bom dia com um sorriso, nos sentimos a pessoa mais feliz do mundo, nos sentimos a pessoa mais especial do mundo e é muito boa essa sensação, porque acredito que até as máquinas necessitam e clamam, nem que seja de uma forma defeituosa, por assistência, por reparo! Estamos virando máquinas porque a vida está solicitando muito de nós e não temos a capacidade de dizer não para ela; é mais fácil parar de sentir do que se dedicar ou frustrar um nobre pedido da vida; é mais fácil renunciarmos a nossa condição de seres que possuem limites. Almejamos o voo sem ao menos cuidar ou fazer nascer as nossas asas, a verdade é que não temos mais tempo de cultivar, queremos tudo pronto para ontem. Só queremos e nem sabemos mais o verdadeiro significado do querer.

A vida é difícil porque as pessoas são assim e isso vai permanecer mesmo que sejamos as pessoas mais resilientes do mundo; no fundo, o balanço da maré nos mantem seres sensíveis à experiência de estarmos dentro de um barco parado. É necessário também saber estacionar! 

No fim, a leveza vem quando estendemos que só temos duas mãos e dois pés. Que não adianta, assim, segurarmos mais do que aguentamos e, muito menos, corrermos tanto com esses pés que se cansam quando não são respeitados. A calma vem quando conseguimos visualizar concretamente o fato de que mesmo se tivéssemos todas as mãos do mundo, ainda assim, reclamaríamos, pois isso é algo que faz parte da nossa natureza. Nossas mãos não são capazes de nos prender e quando o fazem nos tornamos as tais máquinas anteriormente faladas. Máquinas são acionadas com os toques de outros dedos, os humanos, com os toques de uma alma. Sejamos a alma que toca e a alma tocada.

If it's a broken part, replace it
If it's a broken arm then brace it
If it's a broken heart then face it

And hold your own
Know your name
And go your own way

And everything will be fine